Roda de leitura literária terapêutica: ler, falar e moldar a vida em conjunto

A poesia sempre me salva. Em dias que a esperança anda na corda bamba, eu procuro a poesia. Não só em textos – até porque, nos meus significados, um show de punk rock com os amigos também vem carregado dela.

Poesia em mim é a emoção, o belo, o sensível, a ausência do racional e o sentido num mundo quando a falta de sentido grita mais alto. Poesia é a resistência. Isso tudo combina com o exemplo do punk rock citado porque quando a música protesta e defende, entre tantos valores, a justiça, ela se torna bela e sensível.

Divagações à parte, a poesia na minha vida se faz presente na maior parte pela literatura, seja poesia em sua forma textual, seja prosa poética ou outras linguagens despertadoras do significado da poesia em mim. Então, era natural pulsar forte em mim uma vontade de juntar o literário com o terapêutico – o que não é uma novidade, é claro, pois centenas de profissionais da saúde mental/relacional/emocional usam esse artifício de maneiras muitos diversas.

Eu queria fazer uma roda de leitura literária terapêutica. Ficava deslindando comigo mesma como seria, como fazer, a partir de que textos. Ou era por um caminho inverso. “Uau, imagina conversar sobre esse texto numa roda mediada a partir do pensamento sistêmico, da abordagem construcionista?!”

E não é que a partir do encontro entre amigas, cada uma com um propósito, colocamos em prática minha grande vontade? Assim foi realizado um evento que recebeu o título De volta à pele: em busca de sua essência. Com um grupo formado por 20 mulheres, lemos juntas o conto da tradição oral escandinavo chamado Pele de Foca, Pele de Alma, conhecido por estar no livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estès

Essas mulheres se permitiram ser tocadas pelo texto lido e generosamente compartilharam suas histórias, suas emoções, pensamentos. E aí o bonito aconteceu. É possível nos percebermos como seres coletivos, que se relacionam, que vivem em sociedade, que passa por ciclos biológicos e por tudo o mais que nos torna semelhantes em nossas universalidades. E ainda experimentar o mágico saber sermos completamente singulares, lendo o mundo a nossa volta a partir do repertório de vida de cada uma, dos múltiplos contextos de cada uma, exercendo a liberdade de colocar foco naquilo que lhe toca a alma, seja bom ou ruim o sentimento que isso produz.

Tudo ali no encontro era um convite – e creio que dar a liberdade ao outro de se manifestar em sua espontaneidade e vontade é o princípio das construções relacionais – e pedi que escrevessem num papel uma palavra ou uma expressão que representasse parte de sua essência. Todas aceitaram compartilhar e vimos germinar palavras lindas como família, esperança, intensa, verdade, coragem. Algumas se repetiam.

Ao final do nosso bate papo, de histórias compartilhadas, perguntei se gostariam de acrescentar novas palavras a sua essência. E a maioria decidiu compartilhar uma nova lista de essências, nomes para partes de si mesmas que foram descobertos/construídos no encontro com outras pessoas de diferentes opiniões, classes sociais, profissões, idades. Como não faltou bom humor e risadas, porque dá pra se emocionar e rir ao mesmo tempo – viva! – teve gente que colocou na lista o nome de uma colega ali presente. Que nome podemos dar a isso? Empatia? Admiração? Identificação?

Leio a iniciativa das mulheres de aumentar sua lista sobre si mesma como concretização da construção em grupo, pelo relacional, uma roda dialógica com a literatura como disparador. E isso, na minha concepção, é poético.

A linguagem, geradora de mundos, deu origem a novos pequenos mundos que ao longo dos dias talvez sejam incorporados às suas vidas, bem de mansinho, em uma pequena diferença a permitir algumas transformações.

Terminei o encontro dizendo pra elas a frase de Tom Andersen que deixo aqui: “o que expressamos molda nossas vidas e entendimentos”.

A roda continua a girar

Quando eu estava contado essas vivências a uma amiga que não pode comparecer ao encontro, meus poros me lembraram de sua existência. O arrepiar da minha pele só evidenciou o quanto eu costurei bem bonitinho alguns detalhes que fazem sentido pra mim. O que é bem interessante porque eu contava sobre como deixamos que roubem nossas peles e como também, algumas vezes, contribuímos para que ela seja roubada.

A minha emoção ao relatar o encontro, me fez perceber ter me devolvido à minha pele. Ou ter colocado minha pele de volta ao seu lugar.

Eu acredito nas construções em grupo. Por sentir que eu estava num lugar que há tempos deseja ocupar. Por mediar e por ouvir histórias, por ver que juntos abrimos mais portas que estando sozinha. E por perceber que estar junto é resistência. E resistência é poesia.

 

 


 

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