Quem poderá dizer quem vai ou não?


    A primeira família que atendi como terapeuta, acompanhada de uma colega e dos professores/orientadores, era formada por pais e três filhos. A criança mais nova era uma menina trans e quando esse tema surgiu no setting terapêutico (e não foi por isso que eles foram à terapia), ela, com 9 anos de idade, numa determinada conversa a respeito do menino que ela tinha sido, disse assim: “ah aquele outro lá?”. A experiência de ouvir essa frase foi uma das coisas mais lindas, mais sábias, mais potentes e até hoje me emociona pensar que num ambiente de amor e legitimação (e acompanhamento adequado), essa criança teve a oportunidade de se desconstruir e se construir. Isso ficou evidente na sua linguagem, afinal é por ela, pela linguagem, que somos construídos e reconstruídos.

    Essa experiência foi tão determinante pra mim que é uma das passagens que compõem a minha monografia de conclusão de curso e sempre que conto sobre esse momento, eu me emociono até na raiz do cabelo. Porque vejo amor e a possibilidade de existência de mãos dadas. E foi uma emoção forte como essa, de ver concretizar amor e aceitação, que a leitura do livro Acho que vamos todas para o céu, de Júlia da Silva Moreira, resgatou e/ou restaurou em mim.

    Eu comecei a seguir a Júlia pelas redes sociais porque ela, formada em Letras e é professora em Berlim, sempre posta conteúdos relacionados a filmes e livros. Foi ali que um dia descobri seu livro, lançado pela editora Diadorim. Comprei, li, amei. E estou aqui quase sem saber me organizar sobre o que escrever porque ele é uma avalanche de metáforas maravilhosas – a começar pela capa.

    Fiquei pensando no quanto me conectei com as dores da autora-personagem, embora eu nem sequer possa imaginar o que é ocupar o espaço e o não-espaço de uma pessoa trans. Seu corpo e o seu não-corpo (quando invalidado) numa sociedade que raramente legitima essas pessoas. E pensei também se a leitura não seria uma forma de aproximação e sensibilização às dores da rejeição. Quem sabe as lágrimas da leitura – ou meia lágrima, parafraseando a autora – não seriam capazes de amolecer corações carrancudos às pautas de discussão de identidade de gênero. Não que o livro tenha que ter alguma função, mas ele pode contribuir para conversas maduras sobre o que a sociedade, todos nós, julgamos ser “diferente” ao possibilitar refletir sobre nossas existências, nossas humanidades.

    Antes de racionalizar sobre tudo isso, eu senti, como eu estava dizendo. Eu vivi minhas emoções, com a leitura, e por elas pude me conectar com a autora. Cada belíssima metáfora tocava meu corpo como se fosse ela mesma colocando a mão em mim. Senti minha pele perto da pele dela, da pele de Luana. Que poder da autora de nos colocar tão próxima delas e de uma amizade que salva e vale a vida.

    Percebam que estou misturando autora e personagem. É que o livro é uma autoficção, eu diria - se é que há a necessidade de classificar livros – e traz o encantador fio de incerteza sobre o que ali é fato ou é ficção. Mas a criação também não é real? Os medos, as mágoas, as dores, as alegrias, as surpresas...todas as emoções que senti foram bem reais.

    Foi nesse brincar com real e ficção, e com o tempo de narrativa não linear, que Júlia pode escrever o futuro (e sobre isso não vou falar muito pra não desmanchar a descoberta que só pode ser feita conforme caminha a leitura). E isso me emocionou tanto quanto a passagem do turbante (vou deixar para os leitores descobrirem). Futuro para pessoas trans é praticamente um artigo de luxo, especialmente no Brasil, país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo.

    Fiquei angustiada numa certa parte do livro, me perguntando em que horas a violência ia surgir assustadora, até me dar conta de que ela estava presente o tempo todo, é claro – e isso sim é assustador: esquecer que o violento não é somente escandaloso e se parece muito com o lobo em pede de cordeiro. Mas o amor também está lá. Escondido e escancarado. É ele a chama da resistência contra solidão, isolamento, preconceito? Para Humberto Maturana, biólogo cujo trabalho também fundamenta o pensamento sistêmico, “a emoção que estrutura a coexistência social é o amor”. Talvez a gente só precise furar as bolhas pra esse amor não ficar restrito.

    Entre tantas palavras impactantes num livro tão delicado, Júlia diz que “a pista é como o sertão”. Violência e poesia estão nas ruas e pra quem sobrevive delas. Essa construção me remete a uma das orações mais belas e tocantes da literatura (“Diadorim é minha neblina”)*.

    Enquanto isso, a frase “ninguém vai impedir uma travesti de rezar” invade minhas emoções como uma semente e em mim brota assim: por mais ódio que se tenha e se pratique, por mais poder que um tente sobre o outro, ninguém pode impedir uma alma de se aproximar da essência da criação, da existência, do sublime, do divino, desse mistério que é a vida. Na página 139: “é preciso obedecer o mistério”.

    Júlia faz algo lindo também com a própria literatura, um dos pilares de sua formação como pessoa e profissional, quando deu vida a detalhes preciosos que fazem referências e homenagens a grandes nomes da leitura brasileira (um deles eu citei ali acima) e da literatura contemporânea latino-americana**. Nesse último caso, um lembrete da potência dos livros escritos por pessoas trans e um reforço sobre o quanto é vital se aliar e encontrar uma família para pertencer.

    Nenhum ser humano foi feito para ficar sozinho. Sozinhos não somos seres.
 
 
*do livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa
** um spoilerzinho que vale o registro: Camila Sosa Villada. Se não conhece, vá conhecer.
 

 

 


 

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