Um pai para Lily: um filme que reforça minha crença no poder do afeto

Arrisco dizer que até pouco tempo atrás costumávamos pensar que luto se referia apenas à morte. É recente termos liberdade e acolhimento a respeito das nossas dores variadas. É recente que tipos diferentes de sofrimento sejam validados e não comparados.

Acolher dores sem régua de medida, sem balança para verificar o peso, faz uma tremenda diferença na vida de uma pessoa. A forma de ver e se relacionar com as dores implica diretamente no jeito de ser das relações. Nós, terapeutas, vemos isso na clínica. Mas podemos falar sobre isso olhando para um filme lindo e delicado, traduzido no Brasil como Um pai para Lily.

Várias cenas, sutis algumas, me emocionaram, então já aviso aos corações sensíveis: é daqueles filmes que tocam mesmo. Meu marido também não escapou das lágrimas silenciosas e vagarosas correndo no rosto algumas vezes durante as quase duas horas de filme.

O título do filme já dá umas indicações do que pode acontecer. Lily tem um pai ausente e quando tenta falar com ele em redes sociais, encontra um homônimo, com quem ela puxa conversa.  

Lily e seu pai foram abandonados pela mãe. E quem tomou o lugar de cuidadora daquela pequena família de filha e pai foi ela. Cuidou tanto da dor daquele pai que ela amava que esqueceu de si mesma. Ah que narrativa corriqueira essa a de se doar e de se esquecer de si. Essa de inverter papéis - filhos engolindo suas dores e assumindo o papel de ser responsável numa família – também se vê muito por aí.

Com o tempo a relação de Lily e Bob Travino das redes sociais vira uma amizade e ela encontra alguém que, mesmo admitindo que não será seu pai, oferece a momentos antes nunca vividos. Bob o amigo escuta, enxerga Lily. Bob o amigo escolheu usar a dor vivida para olhar o outro com sensibilidade. Não mede o tamanho da dor da Lily. Reconhece variados tipos de luto na vida da garota e oferece a ele um ombro. Ambos ganham a oportunidade de rever atitudes e refletir mais sobre suas vidas – cumprindo assim o papel das boas relações de permitir ao outro o cuidado de si mesmo.

Estou aqui valorizando escolhas, quando elas são possíveis. Não pra julgar Bob pai. Como todos nós, ele desenvolveu suas habilidades a partir de seus repertórios de vida. Mas falemos das escolhas. Bob amigo e Lilly decidiram olhar para outra direção em suas vidas de narrativas saturadas de dor. Deram oportunidades a eles mesmos de percorrer o lado luminoso. Não deixaram o medo da perda berrar mais alto – talvez esse fosse um dos sentimentos do pai de Lily? Medo de se vincular? – e ganharam mais vida. Viveram uma relação dessas de valer a pena ser registrada e guardada.

Um trecho de uma crítica que li na internet diz que o filme falha em construir vínculos pouco críveis. Não concordo. Primeiro porque é papel da arte nos tirar um pouco da realidade chata e isso não seria uma falha. Segundo, como pouco crível? Não são raras as relações de afetos construídos para além do sangue, mas por uma escolha de amar e se deixar ser amado.

Confesso que são as histórias que mais me movem e me comovem essas de amor. Olhar na direção do afeto é um ato de resistência e de diferença.

Vale dizer que o longa é baseado numa história real vivida pela diretora e roteirista do filme, Tracie Laymon.

 

Filme: Um pai para Lily (Bob Trevino likes it), de 2025.

Com direção de Tracie Laymon e interpretações e Barbie Fereira, John Leguizamo, French Stwart, Rachel Bay Jones.

 

 

 

  

Comentários

Postagens mais visitadas